Palacio Capanema

Flavio Carsalade é arqui­te­to (1980), Mestre e Doutor espe­cia­li­za­do em patri­mô­nio cul­tu­ral, autor de vários livros sobre o tema, pro­fes­sor da Universidade Federal de Minas Gerais e atual pre­si­den­te do Icomos Brasil

Ciudad: Rio de Janeiro
Productor: Arquitetos Lúcio Costa, Carlos Leão, Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy, Ernani Vasconcelos e Jorge Moreira com con­sul­to­ria de Le Corbusier
Personas Vinculadas: Lúcio Costa, Carlos Leão, Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy, Ernani Vasconcelos, Jorge Moreira, Le Corbusier
Ubicación: Rua da Imprensa, 16 – Centro, Rio de Janeiro — RJ. Brasil
País: Brasil

‘’Este pré­dio, esta nobre ‘casa’, este palá­cio, con­ce­bi­do em 1936 (…) é dupla­men­te sim­bó­li­co: pri­mei­ro por­que mos­trou que o gênio nati­vo é capaz de absor­ver e assi­mi­lar a inven­ti­va alheia, não só lhe atri­buin­do cono­tação pró­pria, incon­fun­dí­vel, como ante­ci­pan­do-se a ela na rea­li­zação; segun­do, por­que foi cons­truí­do len­ta­men­te, num país ainda sub­de­sen­vol­vi­do e dis­tan­te, por arqui­te­tos moços e inex­pe­rien­tes mas pos­suí­dos de con­vic­ta pai­xão e de fé…’’

— Lucio Costa, Registro de uma vivên­cia, p. 128

Estamos no iní­cio da déca­da de 1930. Como vários paí­ses da América Latina, o Brasil pas­sa­va por um perío­do de cons­trução de sua iden­ti­da­de nacio­nal, a pouco menos de cin­quen­ta anos de implan­tação de sua repú­bli­ca (1889). Na Semana de Arte Moderna de São Paulo de 1922, foi anun­cia­do o movi­men­to antro­po­fá­gi­co, onde se cele­bra­va a dife­ren­ciação cul­tu­ral do Brasil de sua matriz euro­peia e se ins­ti­tuía uma arte emi­nen­te­men­te bra­si­lei­ra. Em des­com­pas­so com a van­guar­da das outras artes, a arqui­te­tu­ra ainda titu­bea­va quan­to ao que seria uma lin­gua­gem arqui­te­tô­ni­ca autô­no­ma e nacio­nal. Ainda impres­sio­na­dos com a rein­ter­pre­tação local do barro­co euro­peu rea­li­za­da em Minas Gerais por gênios como o Aleijadinho, os arqui­te­tos explo­ra­vam o neo­co­lo­nial como sendo a expres­são autên­ti­ca da bra­si­li­da­de. Lucio Costa, o arqui­te­to mais influen­te do país à época, vinha explo­ran­do esse esti­lo em suas obras até que, em 1927, tomou conhe­ci­men­to da obra de Le Corbusier. Imediatamente apai­xo­nou-se por ela mas, sem que­rer renun­ciar a busca de uma iden­ti­da­de nacio­nal, logo com­preen­deu que não era na revi­si­tação do perío­do colo­nial que esta­va o futu­ro de nossa arqui­te­tu­ra e começou a ensaiar novas for­mas, na busca de com­bi­nar a nova van­guar­da euro­peia com os ares nati­vos.

A maior opor­tu­ni­da­de nas­ceu atra­vés do pro­je­to do novo edi­fí­cio para o Ministério da Educação e Saúde, no Rio de Janeiro, cida­de-sede do governo fede­ral. Para esse novo pré­dio, foi rea­li­za­do um con­cur­so de pro­je­tos, cujo ven­ce­dor foi uma pro­pos­ta em esti­lo ‘’art-decó getu­liano’’, como foram rotu­la­dos pos­te­rior­men­te os inúme­ros exem­pla­res cons­truí­dos pelo dita­dor bra­si­lei­ro Getúlio Vargas (1930–1945), mar­ca­dos pela pre­se­nça de volu­mes pris­má­ti­cos mas­si­vos, com cará­ter fas­cis­ta, como aque­les cons­truí­dos por essa mesma época na Itália. Lúcio Costa já era influen­te no Ministério da Educação e Saúde, coman­da­do pelo Ministro Gustavo Capanema, cujo gabi­ne­te era for­ma­do por inte­lec­tuais e poe­tas de van­guar­da. Por sua inter­fe­rên­cia, o Ministro anu­lou o con­cur­so e acei­tou a suges­tão de Lucio de se fazer um novo pro­je­to, à luz do que mais moderno se fazia no mundo. Para tanto, era indis­pen­sá­vel tra­zer seu gran­de arau­to, o arqui­te­to fran­co-suiço Le Corbusier, com o qual já tra­va­ra uma sóli­da ami­za­de.

Além desse con­vi­te, Lucio for­mou uma equi­pe de jovens arqui­te­tos que pudes­sem apro­vei­tar a opor­tu­ni­da­de desse apren­di­za­do. Le Corbusier che­gou já dizen­do ao que vinha. Sugeriu a troca do terreno por outro em fren­te ao mar, a uti­li­zação do con­cre­to arma­do, uma téc­ni­ca ainda inci­pien­te no Brasil e a apli­cação de seus cinco pon­tos: pilo­tis, terraço-jar­dim, estru­tu­ra autô­no­ma, facha­da livre e pano de vidro na facha­da. Seu cro­quis, uti­li­zan­do esses prin­cí­pios, resul­tou em volu­me hori­zon­ta­li­za­do de gran­des pro­po­rções e com vista para o mar. No entan­to, não sendo pos­sí­vel a troca de terre­nos, a equi­pe bra­si­lei­ra tra­balhou em outro pro­je­to, seguin­do os mes­mos prin­cí­pios, mas que resul­tou em uma forma total­men­te dife­ren­cia­da. A nova pro­pos­ta, a qual foi efe­ti­va­men­te cons­truí­da, é cons­ti­tuí­da por um bloco prin­ci­pal de 16 anda­res, a par­tir do qual  pro­je­ta-se a ala do audi­tó­rio, no nível térreo e uma mar­qui­se na posição opos­ta. O con­jun­to ocupa toda a qua­dra do lote e cria uma exten­são do espaço públi­co das qua­tro ruas que o cer­cam em praça sob o pré­dio, ilu­mi­na­da e aber­ta graças ao pé-direi­to de nove metros que acom­panha toda a exten­são edi­fi­ca­da. A moder­ni­da­de da pro­pos­ta não esta­va ape­nas na tec­no­lo­gia e nos prin­cí­pios cor­bu­sia­nos, mas tam­bém na uti­li­zação pio­nei­ra dos bri­ses-soleil e da cor­ti­na de vidro que, segun­do Lúcio Costa, ‘’em 1938, com o pré­dio do Ministério já em cons­trução, ainda não havia em Nova York nenhum arranha-céu com facha­da envi­draça­da – a cur­tain-wall ou mur rideau- sur­gi­ram todas depois’’.

A aspi­ração de uma arqui­te­tu­ra bra­si­lei­ra, no entan­to, não tinha sido aban­do­na­da. A solução final per­mi­te que a brisa pas­seie pela ampli­dão espa­cial do pilo­tis e que a luz dos tró­pi­cos brilhe nos volu­mes e crie zonas de som­bra no pilo­tis e nos inte­rio­res mar­ca­dos pelo ritmo dos bri­ses-soleil. A tra­dição barro­ca de arte total é res­ga­ta­da no diá­lo­go com as artes, atra­vés da pre­se­nça do pai­sa­gis­mo inova­dor e bem bra­si­lei­ro de Roberto Burle-Marx nos terraços, do res­ga­te da tra­dição bra­si­lei­ra de azu­le­ja­ria deco­ra­dos por Cândido Portinari, além de pin­tu­ras de Alberto Guignard, Pancetti e escul­tu­ras de Bruno Giorgi, Adriana Janacópulus, Jacques Lipchitz Celso Antônio Silveira de Menezes. 

Dentre essas obras de arte, mere­ce des­ta­que a série de murais pin­ta­da por Cândido Portinari deno­mi­na­da “Ciclos Econômicos” e que deco­ram a sala de audiên­cias do Palácio Gustavo Capanema. Ali estão retra­ta­dos em doze afres­cos a evo­lução eco­nô­mi­ca do Brasil repre­sen­ta­das pelos ciclos do Pau-Brasil, da Cana-de-açú­car, do Gado, do Garimpo, do Fumo, do Algodão, da Erva-Mate, do Café, do Cacau, do Ferro, da Borracha e da Carnaúba. O tema do tra­balho foi retra­ta­do inúme­ras vezes pelo artis­ta, den­tro de sua fé de que o labor dig­ni­fi­ca a vida e em memó­ria a sua infân­cia em uma fazen­da de café. Mas não era só o tra­balho que ali se retra­ta­va, havia tam­bém uma crí­ti­ca social na medi­da em que os tra­balha­do­res eram sem­pre negros e mes­tiços. Como vários afres­cos pelo mundo, Portinari tam­bém acre­di­ta­va no poder edu­ca­ti­vo da arte e a uti­li­zou como forma de trans­for­mação social. A força de sua pin­tu­ra e sua pro­dução pro­fí­cua, fez com que Portinari seja con­si­de­ra­do um dos prin­ci­pais artis­tas do Brasil e precursor/ difu­sor de um moder­nis­mo tam­bém muito bra­si­lei­ro.

O Ministério da Educação e Saúde, depois Ministério da Cultura e depois Palácio Capanema foi, segu­ra­men­te, o gran­de marco inau­gu­ral do moder­nis­mo bra­si­lei­ro e de sua excep­cio­nal con­tri­buição para o movi­men­to moderno por sua auten­ti­ci­da­de e inde­pen­dên­cia dos câno­nes euro­peus. Foi dele que nas­ceu Pampulha, a obra de Oscar Niemeyer con­si­de­ra­da semi­nal para a his­to­rio­gra­fia da arqui­te­tu­ra mun­dial, inau­gu­ra­da em 1943, con­ce­bi­da depois do MES, mas inau­gu­ra­da antes. 

Altivo, leve e lindo, o Palácio Capanema se ergue na van­guar­da, mas com um ar emi­nen­te­men­te bra­si­lei­ro. Exatamente como sonha­ra Lucio Costa e os cons­tru­to­res daque­la nova nação.

Referencias

Libros y publi­ca­cio­nes aso­cia­das (en APA): 

BRUAND, Yves. Arquitetura con­tem­po­râ­nea no Brasil; São Paulo: Editora Perspectiva, 1981.

CAVALCANTI, Lauro. Quando o Brasil era moderno: guia de arqui­te­tu­ra 1928–1960. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2001.

COSTA, Lucio. Registro de uma vivên­cia. São Paulo: Editora 34/ SES, 2018)

MINDLIN, Henrique Ephim. Arquitetura moder­na no Brasil. Rio de Janeiro: Aeroplano Editora, 2000.

Cómo citar este artícu­lo APA (7.ª edi­ción):
Carsalade, F. (2026, 08 de mayo). Palacio Capanema
https://www.modernismolatinoamericano.org/palacio-capanema/

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