
Palacio Capanema
Flavio Carsalade é arquiteto (1980), Mestre e Doutor especializado em patrimônio cultural, autor de vários livros sobre o tema, professor da Universidade Federal de Minas Gerais e atual presidente do Icomos Brasil
‘’Este prédio, esta nobre ‘casa’, este palácio, concebido em 1936 (…) é duplamente simbólico: primeiro porque mostrou que o gênio nativo é capaz de absorver e assimilar a inventiva alheia, não só lhe atribuindo conotação própria, inconfundível, como antecipando-se a ela na realização; segundo, porque foi construído lentamente, num país ainda subdesenvolvido e distante, por arquitetos moços e inexperientes mas possuídos de convicta paixão e de fé…’’
— Lucio Costa, Registro de uma vivência, p. 128
Estamos no início da década de 1930. Como vários países da América Latina, o Brasil passava por um período de construção de sua identidade nacional, a pouco menos de cinquenta anos de implantação de sua república (1889). Na Semana de Arte Moderna de São Paulo de 1922, foi anunciado o movimento antropofágico, onde se celebrava a diferenciação cultural do Brasil de sua matriz europeia e se instituía uma arte eminentemente brasileira. Em descompasso com a vanguarda das outras artes, a arquitetura ainda titubeava quanto ao que seria uma linguagem arquitetônica autônoma e nacional. Ainda impressionados com a reinterpretação local do barroco europeu realizada em Minas Gerais por gênios como o Aleijadinho, os arquitetos exploravam o neocolonial como sendo a expressão autêntica da brasilidade. Lucio Costa, o arquiteto mais influente do país à época, vinha explorando esse estilo em suas obras até que, em 1927, tomou conhecimento da obra de Le Corbusier. Imediatamente apaixonou-se por ela mas, sem querer renunciar a busca de uma identidade nacional, logo compreendeu que não era na revisitação do período colonial que estava o futuro de nossa arquitetura e começou a ensaiar novas formas, na busca de combinar a nova vanguarda europeia com os ares nativos.
A maior oportunidade nasceu através do projeto do novo edifício para o Ministério da Educação e Saúde, no Rio de Janeiro, cidade-sede do governo federal. Para esse novo prédio, foi realizado um concurso de projetos, cujo vencedor foi uma proposta em estilo ‘’art-decó getuliano’’, como foram rotulados posteriormente os inúmeros exemplares construídos pelo ditador brasileiro Getúlio Vargas (1930–1945), marcados pela presença de volumes prismáticos massivos, com caráter fascista, como aqueles construídos por essa mesma época na Itália. Lúcio Costa já era influente no Ministério da Educação e Saúde, comandado pelo Ministro Gustavo Capanema, cujo gabinete era formado por intelectuais e poetas de vanguarda. Por sua interferência, o Ministro anulou o concurso e aceitou a sugestão de Lucio de se fazer um novo projeto, à luz do que mais moderno se fazia no mundo. Para tanto, era indispensável trazer seu grande arauto, o arquiteto franco-suiço Le Corbusier, com o qual já travara uma sólida amizade.
Além desse convite, Lucio formou uma equipe de jovens arquitetos que pudessem aproveitar a oportunidade desse aprendizado. Le Corbusier chegou já dizendo ao que vinha. Sugeriu a troca do terreno por outro em frente ao mar, a utilização do concreto armado, uma técnica ainda incipiente no Brasil e a aplicação de seus cinco pontos: pilotis, terraço-jardim, estrutura autônoma, fachada livre e pano de vidro na fachada. Seu croquis, utilizando esses princípios, resultou em volume horizontalizado de grandes proporções e com vista para o mar. No entanto, não sendo possível a troca de terrenos, a equipe brasileira trabalhou em outro projeto, seguindo os mesmos princípios, mas que resultou em uma forma totalmente diferenciada. A nova proposta, a qual foi efetivamente construída, é constituída por um bloco principal de 16 andares, a partir do qual projeta-se a ala do auditório, no nível térreo e uma marquise na posição oposta. O conjunto ocupa toda a quadra do lote e cria uma extensão do espaço público das quatro ruas que o cercam em praça sob o prédio, iluminada e aberta graças ao pé-direito de nove metros que acompanha toda a extensão edificada. A modernidade da proposta não estava apenas na tecnologia e nos princípios corbusianos, mas também na utilização pioneira dos brises-soleil e da cortina de vidro que, segundo Lúcio Costa, ‘’em 1938, com o prédio do Ministério já em construção, ainda não havia em Nova York nenhum arranha-céu com fachada envidraçada – a curtain-wall ou mur rideau- surgiram todas depois’’.
A aspiração de uma arquitetura brasileira, no entanto, não tinha sido abandonada. A solução final permite que a brisa passeie pela amplidão espacial do pilotis e que a luz dos trópicos brilhe nos volumes e crie zonas de sombra no pilotis e nos interiores marcados pelo ritmo dos brises-soleil. A tradição barroca de arte total é resgatada no diálogo com as artes, através da presença do paisagismo inovador e bem brasileiro de Roberto Burle-Marx nos terraços, do resgate da tradição brasileira de azulejaria decorados por Cândido Portinari, além de pinturas de Alberto Guignard, Pancetti e esculturas de Bruno Giorgi, Adriana Janacópulus, Jacques Lipchitz Celso Antônio Silveira de Menezes.
Dentre essas obras de arte, merece destaque a série de murais pintada por Cândido Portinari denominada “Ciclos Econômicos” e que decoram a sala de audiências do Palácio Gustavo Capanema. Ali estão retratados em doze afrescos a evolução econômica do Brasil representadas pelos ciclos do Pau-Brasil, da Cana-de-açúcar, do Gado, do Garimpo, do Fumo, do Algodão, da Erva-Mate, do Café, do Cacau, do Ferro, da Borracha e da Carnaúba. O tema do trabalho foi retratado inúmeras vezes pelo artista, dentro de sua fé de que o labor dignifica a vida e em memória a sua infância em uma fazenda de café. Mas não era só o trabalho que ali se retratava, havia também uma crítica social na medida em que os trabalhadores eram sempre negros e mestiços. Como vários afrescos pelo mundo, Portinari também acreditava no poder educativo da arte e a utilizou como forma de transformação social. A força de sua pintura e sua produção profícua, fez com que Portinari seja considerado um dos principais artistas do Brasil e precursor/ difusor de um modernismo também muito brasileiro.
O Ministério da Educação e Saúde, depois Ministério da Cultura e depois Palácio Capanema foi, seguramente, o grande marco inaugural do modernismo brasileiro e de sua excepcional contribuição para o movimento moderno por sua autenticidade e independência dos cânones europeus. Foi dele que nasceu Pampulha, a obra de Oscar Niemeyer considerada seminal para a historiografia da arquitetura mundial, inaugurada em 1943, concebida depois do MES, mas inaugurada antes.
Altivo, leve e lindo, o Palácio Capanema se ergue na vanguarda, mas com um ar eminentemente brasileiro. Exatamente como sonhara Lucio Costa e os construtores daquela nova nação.
Referencias
Libros y publicaciones asociadas (en APA):
BRUAND, Yves. Arquitetura contemporânea no Brasil; São Paulo: Editora Perspectiva, 1981.
CAVALCANTI, Lauro. Quando o Brasil era moderno: guia de arquitetura 1928–1960. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2001.
COSTA, Lucio. Registro de uma vivência. São Paulo: Editora 34/ SES, 2018)
MINDLIN, Henrique Ephim. Arquitetura moderna no Brasil. Rio de Janeiro: Aeroplano Editora, 2000.
Cómo citar este artículo APA (7.ª edición):
Carsalade, F. (2026, 08 de mayo). Palacio Capanemahttps://www.modernismolatinoamericano.org/palacio-capanema/
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