Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB)

Gustavo Dalaqua. Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas e inves­ti­ga­dor asso­cia­do da Association for Global Political Thought, Universidade Harvard.

Ciudad: Rio de Janeiro
Productor: Ministério da Educação e Cultura Brasil
Personas Vinculadas: Alberto Guerreiro Ramos, Álvaro Vieira Pinto, Anísio Teixeira, Cândido Mendes, Carlos Estevam Martins, Celso Furtado, Ewaldo Correia Lima, Helga Hoffmann, Ignácio Rangel, Nelson Werneck Sodré, Roberto Campos, Roland Corbisier, Wanderley Guilherme dos Santos.
Ubicación: Arquivo Nacional, Rio de Janeiro
País: Brasil

O Instituto Superior de Estudos Brasileiros tem por fina­li­da­de o estu­do, o ensino e a divul­gação das Ciências Sociais, nota­da­men­te da Economia, da Sociologia, da Política, da História e da Filosofia, a fim de apli­car as cate­go­rias e os méto­dos des­sas ciên­cias à aná­li­se e à com­preen­são crí­ti­ca da reali­da­de bra­si­lei­ra, tendo em vista a ela­bo­ração de ins­tru­men­tos teó­ri­cos que per­mi­tam o incen­ti­vo e a pro­moção do des­en­vol­vi­men­to.

— Roland Corbisier, 1957

De momen­to, incum­be-nos com­preen­der que cada vez mais pre­ci­sa­mos entre­laçar relações de ami­za­de e ação comum com os povos asiá­ti­cos, afri­ca­nos e os do nosso pró­prio con­ti­nen­te, que se encon­tram em situação semelhan­te à nossa. Com este movi­men­to, que­bra­re­mos o esque­ma da domi­nação impe­ria­lis­ta, que só fun­cio­na a con­ten­to com o par­ce­la­men­to da pola­ri­da­de entre o cen­tro e a peri­fe­ria.

— Álvaro Vieira Pinto,1960

As raí­zes do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB) remon­tam a um grupo de estu­dos cria­do por Hélio Jaguaribe, em 1953, que bus­ca­va inves­ti­gar as cau­sas do sub­de­sen­vol­vi­men­to e do des­en­vol­vi­men­to. À época, a inte­lec­tua­li­da­de bra­si­lei­ra encon­tra­va-se em plena eufo­ria des­en­vol­vi­men­tis­ta. Em 1950, Getúlio Vargas fora demo­cra­ti­ca­men­te elei­to pre­si­den­te do Brasil. Influenciado pela CEPAL, o governo Vargas teve o méri­to de com­bi­nar altas taxas de cres­ci­men­to eco­nô­mi­co com polí­ti­cas redis­tri­bu­ti­vas favo­rá­veis à clas­se tra­balha­do­ra. Alguns mem­bros do grupo de Jaguaribe eram pró­xi­mos da admi­nis­tração var­guis­ta e soli­ci­ta­ram ao governo a criação de um ins­ti­tu­to de pes­qui­sa. O Ministério da Educação e Cultura (MEC) foi recep­ti­vo à pro­pos­ta. O sui­cí­dio de Vargas em 1954, entre­tan­to, fez com que se adias­se por quase um ano a criação de um cen­tro de pes­qui­sa dedi­ca­do a pen­sar o des­en­vol­vi­men­to. 

Em julho de 1955 o Presidente João Café Filho criou, por meio de decre­to, o ISEB. Vinculado ao MEC, o ISEB fora con­ce­bi­do como um cen­tro per­ma­nen­te de altos estu­dos de nível pós-uni­ver­si­tá­rio com cinco depar­ta­men­tos: Economia, Filosofia, História, Política e Sociologia. Durante seus quase nove anos de exis­tên­cia, o ISEB per­co­rreu três fases. A pri­mei­ra delas abri­gou duas ver­ten­tes con­co­rren­tes. Enquanto docen­tes como Jaguaribe e Roberto Campos pos­tu­la­vam a hege­mo­nia da bur­gue­sia indus­trial no pro­ces­so do des­en­vol­vi­men­to nacio­nal, pro­fes­so­res como Álvaro Vieira Pinto e Nelson Werneck Sodré enten­diam que o des­en­vol­vi­men­to deve­ria ser lide­ra­do pelas mas­sas popu­la­res. Esta pri­mei­ra fase coin­ci­diu com o perío­do de maior finan­cia­men­to do Instituto e gran­de pro­xi­mi­da­de com o governo. 

Em 1958, Jaguaribe publi­ca O nacio­na­lis­mo na atua­li­da­de bra­si­lei­ra. O livro gera polê­mi­ca den­tro e fora do Instituto por­que defen­de a pri­va­ti­zação do setor petro­quí­mi­co e o capi­tal estran­gei­ro. O Conselho Curador do ISEB mar­cou uma reunião espe­cial para dis­cu­tir a reper­cus­são da obra. Depois dessa crise, todos os pro­fes­so­res que se inco­mo­da­vam com o “pro­se­li­tis­mo mili­tan­te” de alguns ise­bia­nos de esquer­da saí­ram do Instituto (Jaguaribe, 2014, p. 238).

A segun­da fase do ISEB começa em 1959 e vai até 1961. De acor­do com um dos pro­fes­so­res que saí­ram do Instituto no final dos anos cin­quen­ta, a par­tir de sua segun­da fase, “o ISEB se trans­for­mou numa agên­cia elei­to­rei­ra, e ulti­ma­men­te, numa esco­la de mar­xis­mo” (apud Toledo, 1977, p. 188). Embora exa­ge­ra­do, o rela­to de que o ISEB teria se tor­na­do “elei­to­rei­ro” é com­preen­sí­vel por­que, em 1960, Corbisier con­co­rreu ao cargo de depu­tado esta­dual e se valeu do Instituto como pla­ta­for­ma para a sua cam­panha. Difundia-se entre os ise­bia­nos a ideia de que eles deve­riam não ape­nas com­preen­der a reali­da­de bra­si­lei­ra, mas tam­bém trans­for­má-la. Por isso, a for­mação de futu­ros esta­dis­tas pas­sou a ser vista como uma das funções do Instituto.

Em 1961, Corbisier tor­nou-se depu­tado esta­dual e, por­tan­to, teve de se afas­tar do ISEB. Logo em segui­da, Vieira Pinto assu­miu a direção do Instituto. A ter­cei­ra fase se ini­cia com a direção de Vieira Pinto e ter­mi­na uma sema­na após o golpe de Estado de 1964, quan­do o ISEB é fecha­do pelos mili­ta­res. Esta fase coin­ci­de com a radi­ca­li­zação do popu­lis­mo pre­sen­cia­da duran­te o governo de João Goulart (1961–1964) e com a quase inexis­tên­cia de finan­cia­men­to gover­na­men­tal para o Instituto. 

À medi­da que o con­tex­to polí­ti­co bra­si­lei­ro se radi­ca­li­za­va, a pro­dução teó­ri­ca do ISEB tam­bém se radi­ca­li­za­va. O cha­ma­do “últi­mo ISEB” teve um enga­ja­men­to tão forte com os movi­men­tos sociais de esquer­da e com o Partido Comunista Brasileiro que alguns intér­pre­tes o clas­si­fi­ca­ram de orga­ni­zação agit­prop. De 1962 em dian­te, os mem­bros do Instituto con­si­de­ra­vam o país em vias de ingres­sar em um momen­to revo­lu­cio­ná­rio, con­du­zi­do pelo pró­prio pro­ces­so de radi­ca­li­zação do governo Goulart. Diante des­sas cir­cuns­tân­cias, o ISEB se cons­ti­tuiu em um dos cen­tros de pres­são para incre­men­tar tal radi­ca­li­zação. Concebido ini­cial­men­te como um cen­tro irra­dia­dor do nacio­nal-des­en­vol­vi­men­tis­mo de Kubitschek, o ISEB se tor­na­ra um polo difu­sor da revo­lução bra­si­lei­ra. 

Esclareça-se, toda­via, que a muda­nça não sig­ni­fi­ca um aban­dono da preo­cu­pação com o des­en­vol­vi­men­to. É equi­vo­ca­do redu­zir “des­en­vol­vi­men­to” e “des­en­vol­vi­men­tis­mo” a dis­cur­sos que seriam neces­sa­ria­men­te anti-eman­ci­pa­tó­rios. Filho das teo­rias do pro­gres­so da Filosofia Moderna, o des­en­vol­vi­men­tis­mo com­põe-se de duas teses cen­trais. A pri­mei­ra delas con­sis­te no eta­pis­mo, ou seja, na cre­nça de que a his­tó­ria tem dife­ren­tes eta­pas e de que o des­en­vol­vi­men­to aumen­ta con­for­me se passa de uma etapa a outra. A segun­da tese cen­tral do des­en­vol­vi­men­tis­mo é a de que a pas­sa­gem de uma etapa infe­rior a outra supe­rior não é alea­tó­ria, mas sim regi­da por deter­mi­na­das cau­sas. Ainda que tenha sido mobi­li­za­do para jus­ti­fi­car a domi­nação dos povos outro­ra colo­ni­za­dos pelos euro­peus, o des­en­vol­vi­men­tis­mo é com­pa­tí­vel com pro­je­tos de eman­ci­pação social. Um dos aspec­tos mais inter­es­san­tes do ISEB foi o des­en­vol­vi­men­tis­mo anti­co­lo­nial pro­du­zi­do em sua últi­ma fase (Dalaqua, 2024). Ao passo que, na pri­mei­ra fase do ISEB, o des­en­vol­vi­men­to era visto como um pro­ces­so alinha­do ao capi­ta­lis­mo e à demo­cra­cia bur­gue­sa, no apa­gar das luzes do Instituto, os ise­bia­nos pas­sa­ram a afir­mar que a revo­lução socia­lis­ta e a união dos movi­men­tos liber­ta­do­res da América Latina, África e Ásia seriam os prin­ci­pais moto­res do des­en­vol­vi­men­to.

Livros publi­ca­dos pela Editora do ISEB:

Corbisier, R. (1958). Formação e pro­ble­ma da cul­tu­ra bra­si­lei­ra. ISEB.


Corbisier, R. (1960). Brasília e o des­en­vol­vi­men­to nacio­nal. ISEB.


Furtado, C. (1959). A Operação Nordeste. ISEB.


Jaguaribe, H. (1958). O nacio­na­lis­mo na atua­li­da­de bra­si­lei­ra. ISEB.


Mendes, C. (1960). Perspectiva atual da América Latina. ISEB.

Pinto, A. V. (1956). Ideologia e des­en­vol­vi­men­to nacio­nal. ISEB.


Pinto, A. V. (1960). Consciência e reali­da­de nacio­nal (Vols. 1–2). ISEB.


Ramos, A. G. (1958). A redução socio­ló­gi­ca. ISEB.


Sodré, N. W. (1957). As clas­ses sociais no Brasil. ISEB.

Publicações sobre o ISEB:

Botelho, A., Bastos, E. R., & Villas Bôas, G. (Orgs.). (2008). O moderno em ques­tão: a déca­da de 1950 no Brasil. Topbooks.

Dalaqua, G. H. (2023). Populismo e demo­cra­cia: refle­xões a par­tir de Álvaro Vieira Pinto. Novos Estudos CEBRAP42(2), 293–312.

https://doi.org/10.25091/S01013300202300020004

Dalaqua, G. H. (2024). Revolution in Populism: Anticolonial Developmentalism in Brazil’s Populist Republic. The Journal of Imperial and Commonwealth History, 52(6), 969‑1002. https://doi.org/10.1080/03086534.2024.2445010

Gonçalves, D. S. M. (2020). Ciência e polí­ti­ca, ciên­cia ou polí­ti­ca: o ISEB e suas duas vocações. Revista Estudos Políticos, 9(2), 24–41. 

https://doi.org/10.22409/rep.v9i18.40573

Jaguaribe, H. (2014). ISEB: um breve depoi­men­to e uma reapre­ciação crí­ti­ca. Cadernos do Desenvolvimento, 9(14), 231–260.

Souza, N. A., &  Capovilla, C. (Orgs.). (2021). Dossiê temá­ti­co: o ISEB e o des­en­vol­vi­men­to nacio­nal. Princípios, 40(162), 4–202.

Toledo, C. N. (1977). ISEB: fábri­ca de ideo­lo­gias. Ática.

Toledo, C. N. (1998). Intelectuais do ISEB, esquer­da e mar­xis­mo. In J. Q. Moraes (Org.), História do mar­xis­mo no Brasil (Vol. 3, pp. 245–274). Editora da Unicamp.

Toledo, C. N. (Org.). (2005). Intelectuais e polí­ti­ca no Brasil: a expe­riên­cia do ISEB. Revan.

Otros enla­ces:

https://memorialdademocracia.com.br/card/iseb-vai-pensar-o-desenvolvimento

Página do Memorial da Democracia sobre o ISEB.

https://www.achegas.net/numero/vinteeseis/anexo_bib_iseb_26.htm

Apresenta uma exten­sa lista de livros e arti­gos sobre o ISEB.

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