
Conjunto da Pampulha
Junia Ferrari, Arquiteta Urbanista e Doutora em Arquitetura e Urbanismo, Professora Associada da Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (EA/UFMG), Brasil
E tudo começou quando iniciei os estudos de Pampulha – minha primeira fase –, desprezando deliberadamente o ângulo reto tão louvado e a arquitetura racionalista feita de régua e esquadro, para penetrar corajosamente nesse mundo de curvas e forma novas que o concreto armado oferece.
[…]
De Pampulha a Brasília, minha arquitetura seguiu
a mesma linha de liberdade plástica e invenção arquitetural […]
— Oscar Niemeyer
Antes de Brasília ser projetada como a utopia do planalto central, Belo Horizonte já havia ensaiado, décadas antes, um gesto em busca da modernidade: inscrever no espaço a promessa de uma nova ordem. Inaugurada em 1897, foi a primeira capital planejada da jovem república brasileira. Mais que um reordenamento urbano, foi um projeto de fundação simbólica. Era preciso construir uma capital que anunciasse o futuro e apagasse os rastros do passado imperial. Como escreveu o Padre Francisco Martins Dias, em 1896, era tempo de “apagar de vez tudo o que a trono cheirasse ou a rei se referisse” (Magalhães; Andrade, 1989).
Assim, a cidade foi projetada para marcar um espaço — não apenas geográfico, mas ideológico e político. Caberia ao engenheiro Aarão Reis, influenciado pelo positivismo e pelos paradigmas técnicos e científicos do século XIX, dar forma a esse gesto fundacional. Seu plano rejeitava os traçados orgânicos e coloniais e, em contraposição a essa configuração arcaica, adotava uma malha ortogonal, com zonas funcionalmente separadas, um centro administrativo elevado, e amplas avenidas que prometiam ordem, circulação e controle.
Uma cidade desenhada com régua e compasso, que buscava disciplinar os corpos para formar os novos cidadãos. A crença era que a racionalidade impressa no espaço produziria a ordem e o progresso desejados para a vida republicana. Mas o gesto moderno, embora anunciado como ruptura, já nascia subordinado a modelos europeus. O urbanismo de Haussmann — traduzido em monumentalidade, embelezamento e segregação — servia de inspiração. Assim, a modernidade da nova capital oscilava entre o desejo de ser outra e a repetição disfarçada do que já existia.
Décadas depois, a mesma cidade se tornaria palco de um novo experimento modernizador. Juscelino Kubitschek, prefeito de Belo Horizonte entre 1940 e 1945 — depois governador e presidente — escolhia a região da Pampulha como laboratório para seu projeto político-cultural. Enquanto o urbanista Albert Agache vislumbrava naquele local um centro de abastecimento e apoio, bem como de opção para a crescente população das bordas suburbanas, JK o reinventou como vitrine de lazer, cultura e sofisticação para a elite local.
Para concretizar essa nova utopia, Kubitschek convocou Oscar Niemeyer, jovem arquiteto que, ao lado de Burle Marx e Cândido Portinari, deu forma ao Conjunto Arquitetônico da Pampulha — o Cassino, o Iate Clube, a Igreja de São Francisco de Assis e a Casa do Baile. Em pouco tempo, o entorno da lagoa foi tomado por curvas, painéis, jardins e gestos que fundiam arte, técnica e natureza. O concreto armado passou a desenhar não apenas estruturas, mas também símbolos — nascia uma nova sensibilidade estética. Ali o modernismo deixava de ser apenas importação e se tornava criação.
Niemeyer, ainda que em diálogo com os ideais do movimento moderno europeu, subvertia o ângulo reto e a forma estritamente funcional e lançava mão da curva — elemento marcante da paisagem local — como forma de liberdade, inovação e identidade. Segundo Danilo Macedo (2013,p.54), “o Conjunto da Pampulha operava a rearticulação entre os valores nacionais e internacionais, expressando a tensão crítica entre o racionalismo funcional e a organicidade do contexto tropical”. Esse modernismo antropofágico — que devora e reinventa — projetaria a Pampulha como um manifesto de vanguarda, no qual a arquitetura se tornaria linguagem de uma identidade em construção. Pela primeira vez, o moderno parecia falar com voz própria no Brasil. Não se tratava mais de copiar modelos, mas ao contrário, de ensaiar uma estética nacional e com alcance internacional.
Contudo, o projeto, ainda que criado como gesto transformador, também carregava suas contradições. Pensado para uma elite política e econômica, o Conjunto manteve-se afastado das demandas populares. A monumentalidade do traço não alcançaria o cotidiano da população que predominava na cidade. A inovação formal, embora audaciosa, não se traduzia em justiça espacial. O projeto urbanístico da Pampulha, como o de Belo Horizonte décadas antes, operava mais como vitrine do que como base de transformação social. A modernidade, novamente, se fez seletiva.
Essa ambivalência entre invenção e exclusão acompanharia a trajetória da cidade desde a ortogonalidade disciplinadora de Aarão Reis à exuberância plástica de Niemeyer, revelando também os contornos de um país que buscava se reinventar sem contudo romper completamente com suas estruturas fundantes. O espaço urbano registrava os gestos de um futuro que se pretendia, mas também as permanências de um passado dependente que insistia (e ainda persiste) em permanecer.
Esse tensionamento entre vanguarda e desigualdade, e invenção e privilégio, marca, desde então, a experiência urbana brasileira. A Pampulha, assim como Brasília, é simultaneamente gesto audacioso e cicatriz reveladora. Ambas compartilham da utopia que raramente alcança a maioria, afinal, a Pampulha pode ser lida como a antecâmara de Brasília. Foi ali que Niemeyer ensaiou alguns dos traços que marcaria o Planalto, assim como a fusão da arquitetura, da arte e da paisagem.
Belo Horizonte não é apenas cenário do início, é também espelho das promessas inacabadas de um país que quis ser moderno, mas hesitou em ser justo. Sua trajetória urbana — da geometria racional de Aarão Reis ao lirismo arquitetônico da Pampulha — conta a história de uma modernidade tropical ousada, bela, mas contraditória. Como em Brasília, o gesto vanguardista ficou à margem da maioria.
Mas ainda assim, a Pampulha não representa apenas um conjunto edificado que marca a entrada da arquitetura moderna na cena internacional. Simboliza um momento de ousadia, de ruptura e de grafia de uma identidade brasileira, por isso permanece como ícone da possibilidade. Ali, entre o concreto e o reflexo da água, se ensaiou um outro país — belo, moderno e contraditório — mas que ainda busca, entre curvas e retas, exclusões e promessas, construir um futuro que seja, enfim, para a grande maioria.
Referencias
Libros y publicaciones asociadas:
CARSALADE, F. (2007) Pampulha. Belo Horizonte, Brasil: Conceito.
MACEDO, D. M. (2013) Obras de Oscar Niemeyer na Pampulha: 1940–1946. In: ARAUJO, G. M. A Casa em debate: caderno de textos. Belo Horizonte, Brasil: Fundação Municipal de Cultura — Casa do Baile. P. 49–100. Disponível em: https://danilo.arq.br/2013/11/01/obras-de-oscar-niemeyer-na-pampulha-1940–1946/
MACEDO, D. M. (2008) Da matéria à invenção: as obras de Oscar Niemeyer em Minas Gerais, 1938–1955. Brasília, Brasil: Câmara dos Deputados, Coordenação de Publicações. Disponível em: https://bd.camara.leg.br/bd/items/df1e23b5-49b1-4541–929a-3a0be9abc944
MAGALHÃES, B. A.; ANDRADE, R.F. (1989) Belo Horizonte: um espaço para a República. Belo Horizonte, Brasil: UFMG.
NIEMEYER, O. (2001) Um Epílogo Fascinante. In: CORONA, E. Oscar Niemeyer: uma lição de arquitetura. São Paulo, Brasil: FUPAM. P. 116–117.
NIEMEYER, O. (1998) As curvas do tempo: memórias. Rio de Janeiro, Brasil: REVAN.
SEGAWA, H. (2002) Arquiteturas no Brasil l900-l990. São Paulo, Brasil: Editora da Universidade de São Paulo.
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